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Newsletter #7: Como passei a praticar a contemplação (e fiz um curso disso)

  • Foto do escritor: Breno Xis
    Breno Xis
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Saudações do meu estúdio de autocuradoria! Por aqui, as coisas estão em efervescência: o curso “O Olhar Contemplativo” ganhou a rua no momento em que reescrevo o meu projeto de doutorado que, em grande medida, é um desdobramento de minha pesquisa de mestrado. Quero partilhar um pouco sobre como o curso se conecta com meu percurso acadêmico.


O ponto de partida


O curso "O Olhar Contemplativo" surge de uma elaboração que venho fazendo com maior clareza desde minha entrada no mestrado, em 2024, quando passei a pesquisar os modelos terapêuticos do Pirronismo grego e do Madhyamaka budista. As duas tradições partem das aparências, um começo possível graças a uma capacidade contemplativa que nós podemos experimentar.

Há muitas definições de contemplação. Em sua origem latina, significa “observar atentamente dentro do espaço sagrado” ou, mais simplesmente, “examinar cuidadosamente”. É possível que a palavra em latim, contemplatio, derive do grego theôrós: espectador, observador. Esses sentidos sugerem uma capacidade de olhar sem nos precipitarmos imediatamente em construções conceituais; um olhar que é como um espaço não elaborado entre quem observa e a coisa observada. Em algum momento, passamos a ver o que denominamos aparências e discernimos que, em relação a elas, podemos falar sobre elas ou permanecer silenciosos e atentos. Portanto, duas facetas contemplativas: uma capacidade básica de observar sem interposição de pensamentos, e uma capacidade de investigar o que observamos. As duas capacidades parecem funcionar melhor quando se complementam.


A anatomia da contemplação


Sabemos que a capacidade especulativa da contemplação pode se tornar altamente atraente. Temos uma certa adoração pelos ordenamentos que ela sugere. Especular é buscar dar sentido. Sentido é uma dessas coisas vitais para nossa existência. Um medo frequente, ilustrado de muitas formas em nossa produção cultural, relaciona-se à perda do sentido. O ramo conceitualizante da contemplação, ao estabilizar sentidos, arrima nossa existência em uma certa coerência muito valorizada. Porém, há um terror existencial que espreita esse modo de operar: a perda do sentido e, portanto, da coerência. Especulo que esse terror e as perturbações que pode causar para nós, indivíduos, e para a construção de sociedades funcionais, tenham levado a uma sobrevalorização desse ramo, nos levando a desconhecer a dimensão pré-verbal de nossa capacidade contemplativa.


Um fractal
Cuidado ao tentar governar infinitos reinos de possibilidades proliferantes.

Ao olhar para as tradições contemplativas, vemos que algumas enfatizam a contemplação como uma prática de atenção, de moderação dos sentidos, inclusive um retiro no qual se cultiva uma não precipitação no ramo conceitualizante. Os motivos pelos quais enfatizam o ramo atencional da contemplação variam de acordo com suas teleologias e soteriologias. Porém, todas elas advogam que a contemplação, como uma capacidade de atender com atenção, é libertadora. Do que nos liberta? Da ditadura de nossos juízos, muitos dos quais fundados em crenças não evidentes e, apesar disso, tornados dogmáticos.

Passei o mestrado estudando uma escola grega que fez dessa questão um de seus núcleos existenciais: o Pirronismo. Sexto Empírico, um de seus proponentes, entendia claramente sua filosofia como uma terapêutica, uma prática de si com uma finalidade liberativa. Em minha pesquisa, busquei autores e autoras que estabeleceram um diálogo entre o Pirronismo e a tradição Madhyamaka budista. Posso elencar muitas coisas valiosas que aprendi no mestrado. Uma delas foi a oportunidade de praticar a capacidade contemplativa em seus dois ramos e notar, em minha própria experiência, o apelo e o gigantismo do ramo conceitualizante. Essa aptidão de notar a fabricação conceitual quando ela “dispara” na forma de precipitações e juízos era o outro ramo funcionando em sua capacidade. Passei a usar a hipertrofia do ramo conceitualizante para “escorregar” no ramo atencional. Tomo minha insistência nessa oscilação entre os ramos como a gênese da habilidade de aplicação voluntária do olhar contemplativo.

Experimentar um jogo entre os dois ramos da contemplação produziu muitas perguntas e também alguns conhecimentos práticos, como o know-how de suspender o juízo sem necessariamente recorrer ao método pirrônico, a dunamis antithetikê, que requer o uso de conceitos na forma de argumentos para questionar enunciados que se pretendem últimos. No meu caso, tornou-se possível simplesmente notar a precipitação e suspender o processo. Curiosamente, essa habilidade estimulou a capacidade intelectual, algo que o senso comum assume como o contrário do que deveria acontecer, supostamente, produzir um estado vegetativo impraticável e avesso ao pensamento. Minha experiência não corrobora essa suposição. Pelo contrário, sustento que para pensar bem é preciso suspender o juízo de maneira situada e que uma mente viciada em se precipitar não é um lugar adequado para ir além do que pensa saber. Mais do que isso, vejo que uma mente que não pode suspender sua própria fabricação não poderia pensar, especialmente se por pensamento entendemos uma experiência que requer uma não fixação arejadora.

Enquanto escrevo essas palavras, lembro também de minha formação nos treinos de shamata e vipassana, apresentados a mim através de transmissões orais diretas por professores e professoras budistas. Certamente, a prática nesse modo de operar a mente apoiou o meu percurso e as experiências que fui capaz de iniciar com teorias, habilidades e orientações da tradição contemplativa grega. Mais de 20 anos depois de me sentar para acompanhar o queimar de um incenso, praticando atenção plena, eu havia chegado a que parecia uma síntese dos dois ramos da contemplação: o olhar contemplativo, que é o tema central do curso que farei entre março e abril no Espaço Dhyana, em Natal.


Design is my passion! =)
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Criei uma página para o curso, com muitos detalhes sobre o que estou chamando de “olhar contemplativo”. Deem uma olhada. Espero poder encontrar vocês por lá. Ele é pensado como uma introdução ao treino da mente para a meditação, para pessoas que buscam um vislumbre da experiência direta da capacidade contemplativa, especialmente em seu ramo atencional, o ramo que talvez tenhamos que cultivar quando estamos inseridos em um contexto que praticamente nos obriga a viver uma espécie de perversão do ramo conceitualizante da contemplação. Buscarei elaborar no curso como a capacidade especulativa da contemplação, seu ramo teórico, tem sido subvertida por mecanismos de captura da atenção, para gerar uma fabricação conceitual estéril, salvo no efeito de gerar uma mente agitada e cheia de aflições artificiais, fundamentalmente dificultando a capacidade de suspender o juízo e de pensar com rigor, e ainda nos alienando de um aspecto básico de nossa capacidade consciente, que é oferecer atenção e conscienciosidade àquilo em nós que pode observar o momento em que as coisas parecem surgir e demandar nossas reações.

Obrigado por me acompanhar nessa elaboração até aqui.

B.

2 comentários

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Leandro
há 2 dias

Breno, obrigado pelo texto. Estou genuinamente curioso: se o seu curso prega a suspensão do juízo e o cultivo do ramo "pré-verbal", você não tá, no fim das contas, trocando seis por meia dúzia? Como isso não é só trocar uma ditadura de juízos por outra? Desejo sucesso com o curso!

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Breno Xis
Breno Xis
há 2 dias
Respondendo a

Ofereço esse ponto de vista: a suspensão do juízo e a ambientação no ramo atencional da capacidade contemplativa não são sentidos prontos, se por sentidos entendemos teses. A suspensão do juízo é a cessação de formulação de sentidos e precipitação em teses, enquanto o ramo atencional está mais para uma qualidade de abertura não-precipitada. As duas como que limpam o meio de campo de sentidos fixados, porém sem tentar substitui-los por outros sentidos. Obrigado por sua pergunta!

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Breno Xis

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