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Newsletter #6: Quando a vida invade a meditação

  • Foto do escritor: Breno Xis
    Breno Xis
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura


Saudações do meu Estúdio de Autocuradoria! Na edição de hoje, elaboro a seguinte tese: O treino da mente para a meditação não é uma fuga da vida para um "mundo puro", mas um treino para aprender a ver com clareza nossos compromissos éticos e epistemológicos. Essa contemplação vem a reboque de minhas elaborações no contexto de organização do tema central do meu próximo curso: O Olhar Contemplativo. Se quiser saber mais sobre o curso, acesse por aqui. As inscrições estão abertas para os quatro encontros entre os meses de março e abril de 2026, no Espaço Dhyana, em Natal.


B.



Quando a vida invade a meditação


Uma questão central para quem busca na meditação uma via de conhecimento é o encontro com tudo o que carregamos. São justamente essas coisas que, muitas vezes, nos carregam até a almofada e para fora dela. Chegamos, então, com uma certa bagunça, uma mistura de afetos, expectativas e tudo mais. Esta bagunça é a matéria-prima do treino. Perceber isso já é um refinamento: sai de cena a ideia, mais grosseira, de que meditamos para viver em outra realidade, uma onde essa bagunça não tem vez.

Esse refinamento é construído quando compreendemos a razão da vida insistir em entrar em nossa prática. Sentamos como uma pausa da vida corrida e a correria nos acompanha. Podemos brigar com isso, pensar que nossa prática não está funcionando, que não conseguimos meditar. É que levamos para nossa noção de prática uma tese ingênua, a de que a meditação é algo diferente da vida, um mundo puro, no qual as turbulências da vida não nos tocam ou não deveriam nos tocar. Porém, somos tocados. Os efeitos de nossas confusões não têm compromisso com nosso pensamento mágico.

Então, o que estamos fazendo quando nos sentamos para treinar a mente para a meditação? Uma resposta é: estamos aprendendo a ver não apenas tudo o que deve e vai surgir em nosso campo de consciência apesar de nós, mas também o que acontece conosco na presença desses eventos. Portanto, temos aqui duas perspectivas: uma sobre a expressão da mente e outra sobre nossa emergência em meio a isso. Podemos organizar duas instâncias: uma, do fenômeno que simplesmente aparece, e outra, da resposta pessoal e narrativa a ele. Na meditação vamos oscilar entre as duas, cultivando uma qualidade atencional, não-precipitada e investigativa, em meio a elas.

O que acontece é que temos muitas teses e opiniões sobre ambas. Pensamos muito sobre as coisas, esse universo de objetos com os quais nos relacionamos. Mas também pensamos muito sobre nós. Podemos introduzir a ideia de modelos para nos ajudar a enquadrar esse modo de funcionar, que é usar em demasia a fabricação conceitual para entender tudo. Mas ao olhar para nossos modelos de entendimento, damos conta de que eles são um pouco como lentes que vestimos para dizer daquilo que experimentamos. Ocorre que podemos esquecer que estamos vendo as coisas usando modelos aproximativos condicionados e o nosso olhar torna-se um ponto cego. Ele enxerga, mas não vê. Há uma espécie de obfuscação. Isso acontece porque estamos vendo de maneira acrítica e dogmática: estamos imersos em nosso próprio olhar sem considerá-lo uma construção que fabrica, em certa medida, decisiva e consequente, tanto o objeto ou evento que nos sucede como a nós mesmos. O olhar é a ponte entre as duas perspectivas.


Desenho de Jiro Taniguchi.
Desenho de Jiro Taniguchi

Assim, podemos pensar o treino da mente para a meditação como um reencontro com o olhar. E nisso, podemos ver que o olhar é ao mesmo tempo relação e episteme, ética e conhecimento. O treino pode ser enquadrado como a geração de condições para explorar como nos relacionamos com algo; como esse algo é definido por nós pelo conhecimento; e como um eu dependente dessas duas instâncias pode ser visto como um produto disso. Pode ser libertador reconhecer que não estamos isolados em um canto da mente vendo a mente. O objeto nos cria quando nós criamos o objeto. E é por isso que não podemos esperar que nossa prática seja em grande parte outra que não a prática com objetos, sejam eles outros, eus ou istos - todos parcialmente criados pelo olhar em um engendramento interdependente.

Ao ver, vemos a expressão dessa interdependência, mas podemos estar alienados desse reconhecimento. Então, mundos separados, eus, outros e istos um tanto rígidos, aparentemente apartados, encantam o nosso olhar. Essa é a construção da experiência dual, a perspectiva através da qual muitos de nós operam no nosso modo de nos relacionar com a mente. Uma dualidade forte, um tanto inconsciente, mas influente: é a partir dela, por exemplo, que passamos a ver a meditação como essa prática dissociativa, na qual vamos nos retirar para um espaço onde não temos que nos relacionar com tudo o que não gostamos.

Se queremos nos relacionar com o que preferimos, vamos ter que nos relacionar com o que não preferimos. Uma coisa gesta a outra. Se desejamos uma mente calma, vamos ter que nos relacionar com a perturbação e com as causas da perturbação. Se queremos ver com acurácia, temos com confusões e obscurecimentos. O que o treino da mente faz em sua melhor forma é introduzir expedientes curativos e menos violentos de fazer isso. Teremos que olhar para o espelho, já estamos olhando para o espelho, mas podemos levar conosco uma instrução habilidosa para cultivar outros modos de nos relacionar com e conhecer o espelho, seu reflexo e o objeto refletido por ele.

2 comentários

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Roberto
há um dia
Avaliado com 4 de 5 estrelas.

Nunca tinha pensado nisso. Sempre achei que meditar era esvaziar a mente. Ler que minha bagunça é a matéria-prima da meditação é interessante. A parte do 'ponto cego' me deixou pensando... vou tentar prestar atenção nisso. Obrigado!

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Breno Xis
Breno Xis
há um dia
Respondendo a

A ideia de que meditar é esvaziar a mente, além de partir de premissas questionáveis, pode gerar conflito com as aparências da mente. No contexto de minha formação, nunca ouvi meus professores e professoras usando essa expressão. Agradeço por seu comentário e por sua atenção.

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Breno Xis

Atendo pessoas interessadas em aplicar métodos clássicos de treino da mente para cultivar clareza, sensibilidade e conhecimento.

 

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