Do o treino da mente para a meditação
- Breno Xis
- há 5 dias
- 5 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

Indicadores e indícios de que o treino da mente frui em meditação
Para mim, o esforço pode ser usado como um indicador de que o treino da mente está dando lugar à meditação. No treino, especialmente no início, há muito esforço e, portanto, uma boa dose de disciplina é requerida. É um esforço necessário, nem sempre bem calibrado, nascido da confusão: as coisas estão muito misturadas, o autocentramento reina, os fenômenos são um tanto opacos. Todo um trabalho é necessário para treinar uma intimidade justamente para estar na confusão com maior maleabilidade e acuidade, para poder ver melhor a própria confusão, mas também o que não é confusão.
Precisei aprender habilidades básicas para isso, como o calmo permanecer de shamata. Sem ele, tudo parece me mover. As coisas aparecem apenas para turvar o meu olhar. Sem os frutos do treino de shamata, observar a mente é como tentar observar um quadro agarrando-me a ele e sentindo que ele sou eu.
Esse esforço inicial, porém, não é cego. Ele é informado por visões, modelos sobre a natureza da mente, sobre a impermanência, sobre uma ausência de existência intrínseca das aparências. O que importa aqui é que quando o esforço frutifica em insight, em intimidade com o que aparece, começa a ser menos necessário, sua aplicação se torna mais refinada. A agitação não cessa por uma ordem da vontade, mas porque, ao ver as aparências com maior acurácia, a razão para a agitação perde o sentido, ela se libera em conscienciosidade. O treino me ajuda a ver que o sentimento de mobilização, que muitas vezes tomo por meu “eu”, é uma predisposição afetiva desprovida de identidade inerente.
A agitação não cessa por uma ordem da vontade, mas porque, ao ver as aparências com maior acurácia, a razão para a agitação perde o sentido, ela se libera em conscienciosidade.
O efeito desse “ver melhor” é um refinamento. O “eu máximo” do cotidiano, cheio de si, de projetos e defesas, uma experiência de considerável autocentramento, dá lugar a um “eu mínimo” meramente fenomenológico, uma consciência mais aberta e menos fixada, transparente para si mesma, ciente de sua natureza fabricada e livre de centro. Creio que importa dizer que um valor desse "eu mínimo" é o de justamente informar melhor esse "eu máximo", que se leva muito a sério, que se julga uma forma um tanto fixa. Não se trata aqui de que um eu é melhor do que o outro, mas que o eu é uma fabricação que pode ser mais ou menos substancializada, que pode estar mais ou menos consciente de sua contingência.
No meu caso, é nesse refinamento do esforço e na diminuição da importância de um eu que precisa ser o centro da mente que algo muda de qualidade. A experiência da mente torna-se mais bem composta, integrada e simétrica, como se as "partes" em conflito entrassem em ressonância. Diminui a tensão da separatividade. Há uma consonância que não é imposta, mas que surge quando a intensidade dos afetos deixa de ser reificada em narrativas sólidas e passa a fluir livremente. Esse entrar em harmonia é, para mim, um indício de que o trabalho preparatório - o treino da mente para a meditação - está cumprindo o seu propósito e dando lugar à meditação propriamente dita.
A meditação, então, não surge como algo que eu faço, mas como uma espécie de fruto ou, melhor, de fruição que se revela quando as condições são cultivadas, o que para mim parece muito como se eu saísse da frente dela. É um espaço menos agitado porque estou menos agitado ou estou espaçoso o bastante para que a agitação passe por mim sem me fabricar em demasia. Tem uma qualidade mais agradável e mais lúcida, em parte porque parei de buscar fazer com que a mente seja a minha imagem e porque confiei que ela tem sua própria capacidade de esclarecimento sem necessidade de que eu tenha clareza. Por tudo isso, reajo menos não porque estou me controlando, mas porque vejo não haver uma instância minha que precise lançar-se contra ou para longe da experiência. Na transição do treino da mente para a meditação o eu não é mais o protagonista da história.
Na transição do treino da mente para a meditação o eu não é mais o protagonista da história.
Claro, tudo isso que escrevo precisa ser visto pelo que é: um mapa conceitual particular. Por óbvio, não estou escrevendo verdades universais. Quero dizer, porém, que bons mapas são necessários. Um treino da mente é basicamente composto pelos melhores mapas que conseguirmos usar como guias. Ainda assim, todo mapa carrega riscos. No caso deste texto: a “consonância” pode ser confundida com supressão sutil. O “eu mínimo” pode ser tomado como uma nova identidade e reificado. As próprias qualidades emergentes da prática podem se tornar objetos de apego. A confusão retorna, até mais sutilmente, e o treino, portanto, é reativado.
Por isso, ao meu ver, o fim do treino não é um ponto de chegada. É a habilidade de reconhecer a natureza da mente em qualquer estado da mente. Seja na consonância harmoniosa das moradas bem-aventuradas dos equilíbrios meditativos, seja nas aparências confusas onde as aflições geram ciclos fantásticos de renascimento e morte nos quais o eu oscila pra lá e pra cá. Assim, um indicador de que o treino da mente frui em meditação não é um estado específico, mas a diminuição do atrito na consciência, e não pela força, pelo esforço e, já que estamos aqui, pelo embotamento, mas porque houve uma redução significativa da fragmentação, separatividade e dualidade no olhar. A metáfora das partes é ultrapassada e vista pelo que sempre foi: um dispositivo pedagógico do caminho gradual.
É interessante. No fim, a prática mostra-se um movimento paradoxal: usamos o esforço para cultivar as condições nas quais o esforço se torna cada vez mais pontual e menos energético, ou seja, mais hábil. Em algum lugar na transição entre o treino da mente e a meditação a visão permanece mais livre, inclusive de si mesma. Em algum ponto, o treino se desfaz suavemente, revelando algo que não requer nenhum esforço para ser claro e desprovido de complicações.
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