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Newsletter #4: Meditação em meio ao fogo

  • Foto do escritor: Breno Xis
    Breno Xis
  • 18 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025



Este texto é um registro íntimo de insights surgidos em anos de prática meditativa e observação da mente. Ele não segue uma lógica linear, mas se move por associações íntimas. A leitura pode exigir, ao menos inicialmente, uma abordagem mais receptiva do que analítica. Aqui não há uma mensagem oculta a ser decifrada, mas um testemunho pessoal e não dogmático do que pode surgir quando olhamos para a vida a partir do treino da mente para a meditação.


Ô de casa!


O início das coisas parece-me sempre potencialmente perigoso. De certa forma, o início condiciona tudo o que vem a seguir. Também no início podemos vislumbrar meios e fins. O início é como uma semente muito potente. Seu poder é criar. Uma história começa em algum lugar e nós que gostamos de ler temos nossos primeiros parágrafos favoritos. Nós que eventualmente nos encontramos em situação de palestrante podemos gastar algum tempo burilando as palavras de abertura de nossa fala. Sabemos da importância dos começos, mesmo dos pequenos começos, pois não faltam grandes coisas, consequências e repercussões que tenham começado com uma ação mínima e muito delicada, chamada “O Poder do Pequeno”, como alguém chamando “Ô de casa!” lá de fora.


Porque um “Ô de casa!” pode ser o início de uma longa jornada de humanização e, portanto, de contato com o que não é humano, e também com o desumano, mas ainda com teses, com princípios, com o outro, o que pode ser resumido em um processo de desenvolvimento do pensamento e de si, uma criação de si que se desenrola a partir de um “Ô de casa!” ocorrido em outro lugar e tempo não exatamente perdidos, mas transformados em linhas de força propelentes e configurantes. No meu caso, esse “Ô de casa!” me colocou em contato com outra pessoa, uma estranha, que falou comigo com os olhos e com as marcas de sua pele preta e ressecada. Alguns sentimentos nos acompanham pela vida toda. Eles não são muitos e talvez sejam derivações de um sentimento básico que experimentamos como contração e descontração. Eu senti o meu corpo se apertar sobre mim e minha respiração se alterou. Por que aquela mulher estava naquela situação de pobreza? Por que ela precisava pedir comida na casa dos outros? Essas perguntas eu fiz depois, logo depois, porque aquele encontro havia me atualizado sem que eu soubesse disso.


A questão do sofrimento é perpétua. No treino da mente para a meditação, ela é conhecida como uma das portas de entrada. Eu adentrei pelo portão do sofrimento e busquei sobreviver. É notável quando o sofrimento cessa. Havia caminho por ali, por entre um sofrimento e outro, bem como nos espaços onde inexistiam? Antes de mim, muitas outras pessoas se haviam feito a mesma pergunta. Você encontra um pirronista como Sexto Empírico e lá está ele considerando o sofrimento com a maior seriedade. Não é uma mera curiosidade para ele: o corpo dele dói, adoece e envelhece. A mente dele manifesta-se como confusão, angústia e insatisfação. Mais atrás está Buda declarando a existência da experiência de precariedade, descontentamento e de estresse. Não é nada de mais. Todo mundo passa por isso. Todo mundo sofre. E todos vamos buscar formas de nos relacionar com a dor e o mal-estar.


É possível que eu tenha me interessado tanto pela meditação porque vi nela a possibilidade de sofrer melhor e de vivenciar com deleite os momentos onde o sofrimento inexiste. Vendo a mim mesmo e às pessoas à minha volta, nossos conflitos familiares, os horrores de nossas mentalidades autoritárias, fundamentalistas e dogmáticas, e tendo meus próprios momentos espontâneos de suspensão da adesão ao naturalizado, pude ver a mente. É interessante como algo invisível está em todos os cantos. Sai pela boca, mostra-se na feiura nas sedes de comando da polícia de choque, brilha no contato da brisa na pele, manifesta-se em sonhos, na leitura de textos, nas conversas mais cotidianas, nos retornos dos retiros espirituais. Ela também aparecia para me machucar e, paradoxalmente, para me proteger e, dando-lhe o devido crédito, me produzir. Eu realmente não sei o que seria sem a mente.



Uma roda gigante
Sim, estou apelando para a velha metáfora da roda gigante.

E no entanto passei tanto tempo buscando me estabelecer. Eu me procurava e era difícil não saber quem eu era. Ao meu redor, megafones ordenaram: “Seja alguém!”, “Seja um homem!”, “Saiba logo qual é a sua profissão!”. Essas coisas perturbaram o meu juízo. Eu não via a quantidade de petições de princípio que essas exortações têm. Eu me tornei alguém. Eu busquei, ansiosamente, me tornar alguém. Olhando para todo esse esforço e toda a dor que ele produziu, sinto um módico de solidariedade com as pessoas que passam por isso sem nenhuma preparação, jogadas ao fogo do tornar-se à pressão, um ato criativo magnífico mas sempre precário e muitas vezes desolador. Minha prática me levou a ver esse ato tantas e tantas vezes. Eu sou aquilo que se torna, como uma nuvem. Não é que eu me desconstruí. É que a construção é um sonho.


Não é que eu me desconstruí. É que a construção é um sonho.

Aprender a sonhar. Aprender a sonhar melhor e ver que o fim de todo sonho é despertar. Alguns despertares são, como dizem, rudes. Mas contei com uma rede de suporte para cair na real quando o chão se desfez. Essas graças eu devo às pessoas, meus ancestrais, as pessoas que ainda virão e as que já estão aqui. Um dia uma senhora olhou para meu sofrimento com boa vontade e especulou seriamente: “Talvez isso aí seja a dor do mundo”, e minha cabeça explodiu, pois eu havia me reduzido muito. Mas meu coração se abriu e respirou e um botão de flor azul apareceu nele. É poderoso o que um pouco de espírito comunitário, temperado por alguma solidariedade e insight, pode fazer por alguém reduzido a si mesmo. Um botão de flor azul em meio ao fogo.


O treino da mente para a meditação é um ambiente enorme, comportando tudo o que posso experimentar. O centro de meditação é a experiência viva dos elementos. Este texto é a prática. Mas eu não posso dizer que sei o que estou criando, não exatamente. Tenho algumas aspirações e já bati a cabeça em mais confusões do que posso enumerar. Ao menos, sei que estou criando. Isso é o que penso saber. No momento, basta. Depois de muitas horas bunda de treino nas práticas contemplativas algo se tornou mais simples, ainda que mais rico. Estou falando das aparências, então não me entenda mal.


Elas hoje aparecem em um espaço desobstruído, permeado por uma certa liberdade caracterizada pelo arrefecimento da precipitação compulsiva. Um dia, quem sabe, navegarei por entre as aparências, eu mesmo uma aparência, como em um sonho que se sabe sonho e se degusta e se permite. São imagens que brilham por um momento fascinante e se desfazem numa brisa fresca, por vezes  intensa como uma flama. Todo esse tempo me buscando e tentando me encontrar e me deparo com o frescor de uma ausência. Eu, que estou acostumado a me perder, agora me ambiento com não me achar.


Não há um lugar na mente onde eu possa me fixar indefinidamente. Isso é tão interessante porque é precisamente como o espaço do palco em um teatro. É um lugar onde tanta coisa pode acontecer. Mas o palco permanece livre, como se descansado de tudo o que se apresenta nele. Seria eu esse espaço? Essa não é mais a pergunta a ser feita. O espaço não precisa de um eu. A mente, também, não precisa de um eu. Essa não-determinação parece miraculosa quando vemos tudo o que pode engendrar, peças inteiras, com todos os componentes reluzentes. Desde menino fui incentivado por meu tio a ir ao teatro. Tive esse privilégio. Quando me sentei pela primeira vez para acompanhar o queimar de uma brasa de incenso, não poderia imaginar quão maravilhosamente teatral aquilo tudo era e quantos espetáculos aquela simples prática de atenção sustentada iria me capacitar a experimentar melhor.

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Breno Xis

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